A fase invisível do amadurecimento

Temos uma tendência — talvez até uma necessidade — de evolução. Diferente de muitos animais, o ser humano nasce completamente indefeso. Não sabemos andar, falar, nos proteger ou sobreviver sozinhos. Tudo precisa ser aprendido. O crescimento, a mudança e o desenvolvimento não são opcionais: são o próprio caminho para nos tornarmos indivíduos autônomos.

Aprendemos primeiro a controlar o corpo: engatinhar, andar, coordenar movimentos. Depois, aprendemos a linguagem, a interação com o mundo e com os outros. Entendemos, pouco a pouco, como funcionam a gravidade, a água, o fogo, o vento. Aprendemos limites, riscos e possibilidades. Ao longo desse processo, vamos nos formando física, emocional e socialmente.

Por volta dos 25 anos, o corpo atinge sua maturidade biológica. Em geral, é também a fase em que estamos nos estabelecendo profissionalmente, formando novas amizades, deixando a casa dos pais, mudando de cidade, estado ou país. É um período marcado por mudanças externas intensas — tudo parece estar em movimento.

Próximo dos 30 anos, algo começa a mudar. As grandes transformações externas diminuem. A vida tende a se estabilizar. E, junto dessa estabilidade, surge uma sensação estranha: a de estagnação. Passamos a temer mudanças grandes, porque agora elas custam mais. Trazem ansiedade, risco, desconforto. Ainda assim, algo dentro de nós continua dizendo que precisamos mudar.

É aqui que acontece uma transição fundamental, muitas vezes ignorada. Saímos de um ciclo de mudanças externas — corpo, cidade, trabalho, relacionamentos — para um ciclo de mudanças internas. Valores, identidade, sentido, visão de mundo. O desenvolvimento deixa de ser visível e passa a ser silencioso.

O problema é que essas mudanças internas são sutis. Não são palpáveis. Não vêm com marcos claros. Elas não chamam atenção como um novo emprego ou uma mudança de país. Muitas vezes só percebemos seus efeitos indiretamente — por exemplo, quando relermos um livro que lemos na juventude e nos surpreendemos com uma interpretação completamente diferente. Raramente paramos para perguntar por que isso acontece.

É justamente nessa fase que desenvolvemos nossa autenticidade. Deixamos, aos poucos, de apenas reagir ao ambiente e começamos a moldar quem realmente somos. Ou, pelo menos, deveríamos.

Muitos não percebem essa transição. Continuam buscando sentido exclusivamente em estímulos externos: novos cargos, novos projetos, grandes viagens, festas, distrações constantes. Tentam fugir da sensação de estagnação sem entender sua causa. O resultado costuma ser um vazio crescente — uma sensação de que nada faz sentido, mesmo quando “tudo está bem”.

Esse vazio não surge por falta de experiências, mas por falta de formação interior. O espaço que deveria estar sendo ocupado pelo desenvolvimento da personalidade é preenchido por distrações. E isso cobra seu preço.

Mudar dói. Mudar exige esforço, consciência e coragem. Se não buscamos essa mudança de forma deliberada, abrimos mão de viver de maneira autêntica. Permitimos que o mundo defina nossa vida, nossos valores e nossas escolhas. É nesse ponto que surgem as crises, o sentimento de vazio, a insatisfação difusa.

Por isso, a pergunta inevitável é: quem é você hoje?

Olhe para sua fase de vida. Para suas circunstâncias profissionais, seus relacionamentos, seu corpo, sua rotina. Pergunte-se: o que eu deveria estar aprendendo agora? O que essas circunstâncias estão me oferecendo como matéria-prima para me tornar quem eu preciso me tornar?

Aquilo que muitas vezes chamamos de azar, dor, trauma ou dificuldade raramente é apenas isso. Na maioria das vezes, são ferramentas. São os tijolos com os quais construímos nossa essência. Ignorá-los é desperdiçar o próprio processo de formação.

Disciplina, equilíbrio e o preço real dos objetivos

É difícil falar sobre objetivos, mudanças e alcance de metas sem falar sobre disciplina e trabalho duro. Por muito tempo, o discurso dominante foi exatamente esse: disciplina, motivação e força de vontade seriam suficientes para alcançar qualquer objetivo — físico, profissional, financeiro ou intelectual.

Com o tempo, esse discurso começou a mudar. Hoje, vemos muito mais foco em equilíbrio, em uma vida mais plena e em menos cobranças pessoais, o que, no fim, promete uma vida mais feliz. E, de fato, esse discurso é mais saudável.

Mas existem alguns detalhes importantes.

Você está disposto a pagar o preço do objetivo que escolheu?

O primeiro deles está na escolha do objetivo e no preço necessário para alcançá-lo. Definir um objetivo de forma inconsequente — sem avaliar o custo real — é receita certa para frustração. Você gasta energia, não chega onde queria e ainda sai se sentindo incapaz.

Vamos usar a estética corporal como exemplo.

Melhorar a aparência física exige entender o que isso vai exigir de você e se você está, de fato, disposto a pagar esse preço. Muitas vezes vemos o físico de alguém que treina pesado todos os dias, pesa todas as refeições, dorme bem e mantém um foco quase obsessivo por anos — não semanas, não meses, mas anos — e pensamos: “vou focar e ficar assim também”.

Vai mesmo?

Você está disposto a abrir mão de jantares em família? Da pizza com os amigos? Da sessão de cinema com pipoca? Está disposto a treinar pesado mesmo desmotivado, estressado com o trabalho, quando tudo parece estar dando errado?

Não estou dizendo que você deveria estar disposto a isso. O ponto é outro: se o seu objetivo é ter o shape de alguém que pagou esse preço, ou você aceita pagar o mesmo preço, ou precisa mudar o objetivo. Caso contrário, a frustração é inevitável.

Se você valoriza uma vida mais equilibrada — churrasco em família, momentos de lazer, uma rotina mais leve — ótimo. Provavelmente você será até mais feliz assim. Mas seus objetivos precisam estar alinhados com isso.

Não faz sentido se comparar com alguém que dedicou praticamente tudo ao físico. É como querer a performance de um atleta olímpico treinando uma hora por dia, trabalhando das 9h às 17h e ainda lidando com uma vida pessoal instável. Simplesmente não funciona.

Resultados extraordinários exigem uma vida extraordinária — o que, na prática, costuma ser pouco equilibrado e, para muita gente, insustentável.

Quando equilíbrio vira desculpa

Agora, digamos que você ajustou o objetivo. Não quer mais o shape de atleta. Quer apenas melhorar a estética, ser saudável, se sentir bem, manter uma vida equilibrada. Nada de dieta 24/7, nada de treino acima de tudo. Quer viver.

Perfeito. Esse equilíbrio tende, sim, a trazer mais felicidade.

Mas precisamos entender o que é equilíbrio de verdade.

Porque, se hoje você não está satisfeito com onde está, provavelmente já estava vivendo algum tipo de desequilíbrio. E quando decidimos mudar, geralmente fazemos isso num pico de motivação — o clássico “agora vai”. O problema é que essa motivação não dura.

Quando começa a ficar difícil, o discurso do equilíbrio vira uma desculpa para fugir do desconforto.

Dois dias seguindo a dieta e treino, e vem o pensamento: “mas preciso de equilíbrio, hoje não vou treinar”. No dia seguinte: “já que não treinei, tudo bem comer isso aqui”. Em pouco tempo, estamos exatamente nos mesmos hábitos de antes — porque eles são confortáveis.

Equilíbrio não pode ser desculpa. Ele precisa ser aquilo que nos mantém no plano.

Disciplina primeiro, equilíbrio depois

Se você define um plano equilibrado — por exemplo, uma refeição livre por semana — precisa segui-lo por um tempo sem negociar. De forma quase fanática. Esse fanatismo não é para sempre, mas é necessário no início.

No primeiro mês, errar o mínimo possível é fundamental. É justamente esse período sem erros que ensina o que é equilíbrio.

Depois de 30 dias sem pizza, você aprende a comer pizza uma vez por semana ou por mês — e não três vezes por semana. Depois de 30 dias treinando sem falhar, você descobre que treinar sem vontade ainda assim traz uma sensação boa.

Mudança exige um plano consciente, que leve em conta anos de padrões anteriores. Quando negociamos esse plano logo no início, o caminho mais fácil é sempre voltar para os velhos hábitos.

Então, sim, equilíbrio é importante. Mas antes dele, precisamos construir o músculo da disciplina. E músculo só cresce com estímulo constante.

No curto prazo, precisamos abrir mão do equilíbrio para conquistá-lo no longo prazo. Caso contrário, ficamos presos no eterno “agora vai” que nunca vai.

Conclusão

Com um objetivo coerente, consciência do preço que estamos realmente dispostos a pagar e sem negociar esse compromisso, os objetivos deixam de ser promessa e viram realidade.

E só então construímos uma estrutura sólida para um equilíbrio verdadeiro e sustentável.

Antes de buscar equilíbrio, seja honesto com o objetivo que escolheu — e com o preço que está disposto a pagar por ele.

Estímulos intelectuais

Como seres morais, possuímos um intelecto ativo, que possui a necessidade, ou ao menos uma tendência, ao estímulo intelectual. Estamos constantemente buscando tais estímulos.

Há inúmeras formas pelas quais podemos estimular nosso intelecto, desde o estudo, consumo de ficção, jogos, etc. Hoje falaremos sobre o consumo de ficção.

Seria a ficção um bom estímulo intelectual?

Quando nos envolvemos em um mundo de ficção, vivemos uma realidade que não existe, e isso pode ser bom e ruim.

É bom, pois nos permite vivenciarmos experiências que não vivemos, sentir através daquilo que não aconteceu conosco, é um exercício de empatia, e muitas vezes pode nos ensinar mais sobre nós mesmos; assim como algumas das características de David Copperfield, ou alguns sentimentos Andrei Bolkonsky, me mostraram algo sobre minhas próprias características e sentimentos.

A ficção também é uma forma de abrir a mente, pois o autor pode levantar questões que talvez não levantaríamos nós mesmos, e com isso passamos a enxergar algo com uma nova perspectiva.

O lado ruim, no entanto, é que se trata de uma experiência irreal, e o autor pode tendenciar nossos sentimentos da forma que bem entender. A ficção é um monólogo, os argumentos apresentados serão aqueles que o autor julgar representar melhor o sentimento que ele intenciona para seu público.

Assim como autores podem nos fazer enxergar por novas perspectivas, eles também podem perverter algumas dessas perspectivas em sua narrativa e nos transmitir valores, que em seu mundo fictício podem até serem reais, mas que na realidade são falsos. Já ouvi pessoas defendendo o assassinato cometido pelo Raskolnikov no livro Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski (não que Dostoiévski o tenha feito).

É importante entender sobre o autor, a obra, o contexto em que foi escrito, as ideias defendidas e as influências que levaram o autor a defendê-las. Dessa forma a leitura nos será menos perigosa, poderemos deixar que o autor no guie por uma nova experiência em seu mundo literário, porém estaremos mais preparados contra devaneios românticos ou fanatismos idealísticos.

E quanto a filmes?

Assim como livros de ficção, filmes conseguem nos levar a “experienciar” coisas novas e nos proporcionar novas perspectivas, mas há duas grandes diferenças entre ficções literárias e cinematográficas que eu gostaria de destacar.

A primeira delas é a própria natureza do conteúdo, por mais que às duas sejam ficções, o filme, diferente de um livro, tem um escopo maior do que só a narrativa em si. Não sou nenhum conhecedor de cinema, mas consigo perceber algumas competências envolvidas em um filme que não estão presentes em um livro, como filmagem, iluminação, música, cenário, enfim; em um filme, a emoção, a reflexão, o estímulo intelectual em si, é alcançado através de diferentes recursos que não só a narrativa, e isso se reflete em como a estória é contata.
Uma narrativa de guerra, por exemplo, em um livro a representação será consideravelmente menor do que a de um filme, pois em um filme será dado foco para as cenas de ações, detalhes de confrontos, onde haverá um zoom in em confrontos específicos dos personagens principais, um zoom out da batalha como um todo, enfim, uma cena de guerra gera muito mais conteúdo para um filme do que para um livro, ainda que a narrativa seja a mesma.

A segunda é o esforço exigido para o consumo da ficção, um filme exige menos esforço para ser consumido do que um livro, o que os tornam muito atraentes para saciar nossa tendência ao estímulo mental. Essa facilidade, no entanto, pode ser perigosa, pois pode nos levar a excessos, nos fazendo consumir esse tipo de conteúdo por horas a fio, gastando nossa energia intelectual, energia que muitas vezes poderia ser aplicada em algo mais produtivo, que nos leve para mais perto dos nossos objetivos.

Filmes podem nos trazer aprendizados, reflexões, ou até mesmo um relaxamento depois de um dia complicado, mas é importante consumi-los de forma moderada, pois a facilidade do seu consumo pode nos levar a excessos. Um método que considero interessante é setar, previamente, um limite de tempo que se considere saudável para consumo de filmes, e se esforçar para não passar desse limite.

Não penso que deveríamos setar limites apenas para filmes, acredito que livros também podem ser consumidos de forma excessiva, assim como qualquer outro tipo de conteúdo, o ponto é que filmes, assim como qualquer outro conteúdo audiovisual, como redes sociais, vídeos, programas de TV, etc., são mais propícios a consumos excessivos, por exigirem menos esforço para serem consumidos.

Conclusão

Penso que ficção é um bom estímulo intelectual, mas que precisa ser consumido com cuidado. Precisamos entender sobre o autor e as ideias defendidas, e estar atento as distorções da realidade.

É importante setarmos limites para qualquer estímulo intelectual, e isso se aplica também ao consumo de ficção, entretanto o limite saudável vai depender de cada um, da rotina e objetivos de cada pessoa individualmente.

Lembre-se, para cada hora que passamos em uma atividade, há uma infinidade de outras atividades que deixamos de fazer. Precisamos ter sabedoria e usarmos bem nosso tempo, de forma que nos tornemos cada dia melhores versões de nós mesmos.

Life is long if you know how to use it.

Seneca, On the Shortness of Life

Multiplicando o potencial humano

O ser humano possui um alto potencial criativo, lidamos com problemas de forma inteligente, criando soluções que facilitam e melhoram nossa vida. Mas para conseguirmos dar soluções inteligentes para problemas complexos, precisamos não só de criatividade, mas também de informações e conhecimentos — que serão a base do processo criativo — essa sempre foi a parte mais complexa da equação, adquirir as informações e os conhecimentos necessários para a resolução de problemas difíceis.

Em Sabedoria prática eu falei um pouco sobre o impacto que algumas inovações podem ter na nossa forma de enxergar e interagir com o mundo. O computador pessoal e a internet são algumas dessas tecnologias que podemos chamar de divisor de águas, principalmente quando considerado o aumento da nossa capacidade criativa.

“Biblioteca” dentro do bolso

Consideremos um equipamento futuro para uso individual, que é um tipo de arquivo e biblioteca privados e mecanizados. …um aparelho no qual um indivíduo guarda todos os seus livros, registros e comunicações, e que é mecanizado de forma a poder ser consultado com grande velocidade e flexibilidade. É um suplemento íntimo ampliado de sua memória.

Vannevar Bush em As We May Think [Como podemos pensar]

Vannevar Bush, em 1945, vislumbrou o potencial de indivíduos possuírem uma biblioteca privada onde poderiam acessar diversos tipos de informações com rapidez e flexibilidade. Isso em uma época em que para você ter acesso a diferentes tipos de conteúdo literários você teria que, ou ser uma pessoa tão rica a ponto ter uma ampla biblioteca particular, ou teria que se deslocar até uma biblioteca compartilhada; em ambos os casos o processo intelectual criativo sofria atrito, pois após ter os livros em mãos, ainda haveria todo o processo de busca manual para obter as informações de interesse.

Em 1945 sonhava-se com uma forma de podermos armazenar e acessar informações de forma rápida e flexível, aumentando consideravelmente o potencial intelectual criativo do ser humano.
Hoje tal mecanismo se encontra à nossa disposição, podemos acessar praticamente qualquer informação que precisarmos diretamente dos nossos celulares. Possuímos a possibilidade de aprender quase que sobre qualquer assunto, em qualquer lugar que estivermos, desde que tenhamos internet no nosso smartphone. Isso nos dá a oportunidade de abordamos os problemas com uma gama de conhecimento sem precedentes, nos permitindo cruzar informações e conhecimentos, gerando assim resultados mais criativos e impactantes.

Compartilhamento e colaboração

As grandes inovações, as que exercem maior impacto em nossas vidas, geralmente são aquelas criadas em cima de inovações anteriores a elas. Inovações que combinam conhecimentos e descobertas, muitas vezes de áreas distintas do saber, que se complementam e assim surge uma nova forma de resolver um problema.

A oportunidade de compartilhamento que a internet nos trouxe é um potencializador incrível da nossa capacidade criativa. Quando olhamos para as grandes inovações do passado, vemos inovadores “solitários”, pessoas que trabalharam sozinhas a maior parte do tempo. Já as grandes invenções das últimas décadas se dá, não por um inventor solitário, mas por um grupo de pessoas, com diferentes expertises, cada um construindo em cima do trabalho uns dos outros, colaborando e alcançando juntos a inovação.

Quando pensamos no fato de cada ser humano ser diferente uns dos outros, com qualidades e interesses próprios, e que nem sempre as pessoas mais próximas fisicamente de nós compartilham das mesmas paixões, ou possuem qualidades complementares as nossas, vemos ainda mais o quanto a internet aumentou nossa capacidade criativa, pois temos a possibilidade de nos conectarmos com pessoas de praticamente qualquer lugar do mundo. A possibilidade de nos juntar a grupos que partilham dos mesmos interesses que nós, e contribuirmos para algo que acreditamos gerar valor.
Mesmo quando não trabalhamos diretamente com essas pessoas, a internet expande a possibilidade de conhecermos sobre um projeto que está sendo feito no outro lado do mundo, trocar ideias com as pessoas que estão à frente do mesmo, e começar algo semelhante no nosso próprio bairro ou cidade.

Nem tudo são flores…

Tecnologias como a internet e computadores pessoais também têm prejudicado nossa capacidade criativa. O quanto conseguimos aprender e criar depende da nossa capacidade de concentração, foco é fundamental para a compreensão de assuntos complexos e para a produção de um trabalho criativo de qualidade, e hoje, com a internet, somos bombardeados de estímulos o tempo todo, atrofiando nossa habilidade de concentração. Vivemos em um momento da história em que a distração se tornou a regra, e não mais exceção.

O consumo excessivo de portais de notícias e redes sociais também tem drenado horas de nossas vidas, horas que muitas vezes poderiam ser utilizadas em atividades mais alinhadas com nossos objetivos e sonhos, mais alinhadas com nosso potencial criativo.

Conclusão

Vivemos em um momento impar da história, onde temos acesso, quase totalmente democratizado, a informação em seus múltiplos formatos (vídeos, podcasts, documentários, etc.), e disponibilizamos de excelentes ferramentas de colaboração, pelas quais podemos aprender e ensinar, engajar e trabalhar juntos naquilo que nos interessamos.

Vivemos em um ambiente oportuno para o desenvolvimento e inovação. Mas também em um cenário onde a distração e falta de foco se tornou o padrão para a maioria das pessoas.

O computador pessoal e a internet nos dão uma enorme capacidade de aumentar nosso impacto, de aprender, ensinar, contribuir e construir, mas para isso temos que ser propositivos, temos que saber onde queremos chegar, que tipo de pessoa queremos ser, qual marca queremos deixar no mundo, e assim usar tais ferramentas como impulsionadoras da nossa capacidade.

A informação e as ferramentas para crescermos como pessoas — e termos nosso impacto — estão a nossa disposição, cabe a nós as usarmos da melhor forma que pudermos.

Sabedoria prática

Muitas vezes vemos a sabedoria como o acúmulo de conhecimento, formamos a imagem mental do sábio em sua torre de marfim, lendo livros e mais livros. Assumimos que assim se constrói a sabedoria, mas essa é uma ideia errada, pelo menos ao se tratar de sabedoria humana.

A sabedoria não é algo estático, mas algo que se vive diariamente. A sabedoria é prática, tem de ajudar nas decisões que fazemos constantemente em nossa vida, nossos relacionamentos, nossos valores morais, em nossa vida prática.

O computador, mesmo possuindo acesso a praticamente todas as informações do mundo, não é considerado um sábio, pois por mais que ele tenha acesso a todo esse conhecimento, ele não sabe realmente do que se trata toda essa informação, ele a conhece, mas não a entende.

O mesmo se dá com o “sábio” da torre de marfim, por mais que ele tenha lido todos os livros do mundo (o que é impossível) e tenha muita informação, se ele não está vivendo o dia a dia, ele não conseguirá vislumbrar a aplicação de todo esse conhecimento, e jamais conseguirá compreendê-los em sua totalidade.

O estereótipo do filósofo da torre de marfim é uma ideia da idade média, porém é bem diferente da experiência filosófica grega por exemplo. 
Os filósofos gregos eram pessoas ativas, que se engajavam na vida prática, sua filosofia fazia parte de sua vida; seus valores e ideias só eram valiosos pois impactavam diretamente na forma que eles viam e interagiam com o mundo, na forma como tocavam suas próprias vidas e sociedade.

O conhecimento aplicado impacta a experiência humana

Há algumas inovações que resultam em uma mudança substancial na forma como as pessoas vivem e enxergam o mundo, muitas vezes nos esquecemos disso e tendemos a pensar que o mundo foi sempre assim.

Ao olharmos, por exemplo, para a cidade de São Paulo em pleno século 21, há uma abundância que nunca houve na história, podemos ir em um supermercado e encontrar variedades de alimentos em grandes quantidades. Essa é uma realidade proporcionada por diversas pequenas inovações, que juntas fizeram uma enorme diferença.

Olhando mais especificamente para inovações no campo tecnológico, há tecnologias tão revolucionárias, que estão tão inseridas na nossa vida atualmente, que até esquecemos que são invenções humanas do último século, como a internet.

O impacto que uma tecnologia como a internet tem na vida das pessoas é imenso. Hoje através da internet conseguimos nos comunicar com pessoas em diversos lugares do mundo, aprender basicamente sobre qualquer assunto, participar, remotamente, de momentos especiais como o nascimento de um neto, mesmo em um momento de pandemia onde há restrições de viagens, enfim, a internet abriu uma infinidade de oportunidades para a humanidade, e muitas das inovações que vieram depois dela só aconteceram por meio da colaboração entre pessoas de diferentes localidades que a mesma proporcionou.

Eu poderia me estender ainda mais sobre o impacto da internet ou outras inovações tecnológicas, mas esse não é o assunto desse texto, meu ponto é mostrar que as inovações desempenham grande impacto na vida humana, na nossa forma de ver e interagir com o mundo.

Inovações trazem novas perguntas e desafios

As inovações e novos paradigmas que as acompanham, também trazem seus próprios desafios, dilemas éticos e sociais que precisam ser gerenciados. Um exemplo é o próprio conceito de linha de montagem e especialização do trabalhador, que se provou uma forma eficiente de se construir coisas, mas, ao mesmo tempo acrescentou o problema da superespecialização profissional. Quando há uma superfragmentação do trabalho, o interesse do indivíduo em executar tal atividade é destruído, fazendo com que o trabalho deixe de ser prazeroso.

Não podemos esperar que filósofos e sábios do passado respondam essas novas questões que surgem com a inovação, eles não vivenciaram tais mudanças para poder opinar. Cabe a nós, munido de toda a sabedoria nos legada por tais pessoas, resolvermos nossos próprios problemas, com sabedoria e discernimento.

É nosso papel, em um mundo de assistentes virtuais, inteligência artificial, robôs inteligentes, reinterpretar ideias como a de Descartes. Ele não viveu para ver os avanços da tecnologia que nós temos hoje, será que suas ideias sobre robôs e consciência ainda cabem no mundo de hoje? Talvez sim, talvez não, cabe a nós nos questionarmos.

Toda grande mente que nos legou conhecimento e sabedoria viveu em uma época e contexto específico. Tais conhecimentos precisam ser avaliados no nosso contexto atual, frente aos avanços e descobertas que vieram depois deles. É claro que há muito nesses ensinamentos que seja atemporal, mas mesmo nesses, há aplicações práticas que possam precisar de pequenas adaptações.

Conclusão

O extremo de se perder a perspectiva filosófica e histórica, vivendo na “bolha” do nosso próprio tempo, focados no trabalho, acúmulo financeiro, descobertas científicas e satisfação dos prazeres, deixando totalmente de lado a busca da sabedoria, é perigoso, pois não poderemos compreender plenamente nosso próprio momento histórico se não tivemos um panorama da jornada que nos trouxe aqui. Se não estudarmos as ideias de grandes mentes que vieram antes de nós e o contexto histórico em que as mesmas foram concebidas, poderemos cometer erros já cometidos no passado, ou até piores. Aprender com nossa própria história é sinal de inteligência, e também uma forma eficiente de se viver.

Já o extremo da alienação causada pela filosofia da torre de marfim, deixando de compreender minimamente o contexto social, científico, político e religioso do nosso próprio tempo, também é perigoso. A sabedoria é prática, ela se manifesta em um tempo e espaço, se manifesta na nossa vida, nas escolhas que fazemos, nos nossos relacionamentos, na forma como interagimos com o mundo.

Temos que buscar o equilíbrio entre a busca da sabedoria, aprendendo com a história e as grandes mentes que viveram antes de nós, mas sem nos alienarmos da nossa experiência humana, dos prazeres e dificuldades atuais, do que nossa própria época tem para nos oferecer, os desafios e dificuldades que temos de enfrentar.

Devemos construir um novo futuro com sabedoria.

Razão prática

No post O que somos nós? falei um pouco sobre a filosofia empírica, para a qual a experiência sensorial é a fonte do nosso conhecimento.
Para o empirismo nós nascemos como uma folha em branco e adquirimos conhecimento através do que experienciamos.

Kant concorda com parte da filosofia empírica de que o conhecimento vem através das experiências, mas para ele não somos como uma folha em branco, totalmente passiva, que percebe o mundo exatamente como ele é. Ele defende que possuímos alguns atributos cognitivos – inatos ao ser humano – que nos faz compreender as experiências. Atributos esses que chamamos de razão, ou seja, nós vivenciamos as experiências sob a ótica da razão.

Jostein Gaarder em O Mundo de Sofia, usa uma analogia muito boa para compreendermos essa ideia: o uso de óculos com lentes vermelhas.
Ao colocarmos óculos de lentes vermelhas, passaríamos a enxergar tudo com uma tonalidade de vermelho, mesmo que as coisas em si não sejam vermelhas. Ao caminhar por uma floresta com um óculos desse, veríamos todas as árvores, animais, plantas e afins, com uma tonalidade vermelha, ainda que no “mundo real” elas não sejam assim.

Um exemplo desses atributos, existentes na compreensão humana, é o tempo e o espaço, podemos dizer que o tempo e o espaço são como nossos óculos vermelhos, e que tudo que percebemos será percebido por nós através dessa ótica. Todas as nossas percepções serão, inevitavelmente, interpretadas como algo pertencente à um tempo e espaço. Segundo Kant, o tempo e o espaço são propriedades da compreensão humana, não são propriedades do mundo.

Outro exemplo seria a própria lei da causalidade, que para Kant, é uma parte da razão humana.
Hume diz que não conseguimos provar a causalidade entre duas coisas, por exemplo, quando uma bola de bilhar bate na outra, e a outra se move, não podemos provar que a causa da segunda bola se mover foi a primeira ter batido nela, pois não conseguimos experienciar a causa em si, apenas o movimento das bolas. Para Kant a lei da causalidade é absoluta, simplesmente por que nós – seres humanos – sempre perceberemos as coisas como uma relação entre causa e efeito, ou seja, a lei da causalidade faz parte da nossa forma de compreender o mundo, da nossa razão. 

No âmbito das sensações, somos como o restante dos animais, vivendo e reagindo ao nosso ambiente. Mas os seres humanos não são apenas seres com sentimentos, somos também seres racionais. Os atributos cognitivos inatos ao ser humano, que nos faz perceber a sensação de forma única, é o que nos diferencia dos animais.

Para Kant, todas as pessoas possuem uma razão prática que nos diz o que é certo e o que é errado na esfera moral. Apenas quando seguimos nossa razão prática, fazendo escolhas morais, que temos o livre-arbítrio. Nossa liberdade consiste em vivermos seguindo os padrões morais impressos em nós.

Parece estranho evocarmos a liberdade pelo ato de respeitarmos uma Lei, mas é exatamente isso, pois só assim temos a oportunidade de vivermos conforme a moral existente em nós.
O viver imoral implica em um viver sensorial, ou seja, viveremos pelos nossos sentidos e faremos escolhas baseados na sensação, algo muito parecido de como os animais vivem. Seremos escravos das nossas própria paixões e desejos.

Viver de acordo com nossa razão nos traz a liberdade para sermos quem realmente somos, seres morais.

Lembrem-se e não se esqueçam

Por todo Deuteronômio, vemos constantemente o chamado para se lembrar, recordar o que Deus tem feito.

Lembrar o que Deus havia feito por Israel era extremamente importante para que eles se lembrassem de quem eles eram, para se lembrarem do chamado de Deus, para que fossem luz ao mundo.
Lembrar também era importante para que eles não esquecessem que Deus está no controle, que podiam confiar.

Se lembrar do que Deus tem feito, é hoje tão importante quanto foi para Israel, porque, assim como Israel, nós também somos chamados para ser luz.

O cuidado de Deus

Assim como vimos nos últimos estudos dessa lição, o povo de Israel tinha uma tendência a se acostumar com os milagres de Deus. Viviam diariamente perante os milagres de Deus, mas eles se acostumaram, e essas grandes maravilhas passaram a ser algo comum, tão comum que esqueciam que Deus continuava no controle. Não é diferente conosco hoje.

Deus, conforme relatado em Genesis 9:8-17, colocou o arco-íris no céu como uma forma de lembrança, para nos lembrar do juízo que Deus fez sobre a terra em ocasião do dilúvio, e também para nos lembrar da aliança que Deus fez com todos nós, de que o mundo não seria mais destruído por dilúvio. Deus, através do arco-íris, pôs um sinal sobre essa aliança que ele fez conosco.

Entretanto, quando olhamos para um arco-íris hoje, achamos algo normal, algo do cotidiano, não percebemos nisso uma maravilha de Deus, o sinal da aliança, nós nos acostumamos com o milagre e esquecemos do cuidado de Deus.

Mas ainda assim Deus continua cuidando de nós, ainda assim o arco-íris continua aparecendo no céu.

Libertos para servir

Um dos feitos mais marcantes de Deus para o povo do Israel foi a libertação do Egito, onde Deus os tirou da “casa da servidão”, lhes dando liberdade para servir.

Quando estudamos Deuteronômio, vemos que o que Deus fez por Israel tinha um propósito, de que eles fossem luz para outras nações, de que guardassem os preceitos ordenados por Deus e assim serem exemplo.

O próprio ato de obedecer a Deus era uma benção em si, pois, conforme Deuteronômio 4:6-8, viveriam sobre estatutos e leis tão justas que não haviam iguais. A revelação de Deus, seus propósitos, leis e estatutos, eram as maiores bençãos que uma nação poderia querer. Deus os estava instruindo a como viver, os ensinando como serem felizes, como viver em harmonia. Conforme falamos em Que nação há tão grande?, através do viver diferenciado de Israel outras nações os admirariam e assim a luz de Deus alçaria a todos por meio de deles.

Tudo vem de Deus

Quando nos esquecemos de que tudo o que temos vem de Deus, podemos cair em duas armadilhas.

A primeira delas é nos sentirmos orgulhosos por nossas conquistas, nos esquecendo de que tudo que temos vem de Deus, passamos a acreditar que foi nossa força, inteligência e esforço que nos trouxe o que temos, que somos nós os responsáveis por essas conquistas.
O próprio ar que respiramos provém de Deus. Podemos sim desempenhar um papel nessas conquistas através das nossas boas escolhas, mas a própria oportunidade de escolher vem Dele.

A segunda armadilha está na falta de contentamento por aquilo que temos, quando esquecemos que tudo vem de Deus, muitas vezes podemos sentir que não temos aquilo que merecemos, que o mundo é “injusto”.

Tudo o que temos provém de Deus, em proporção e medida certa para que cresçamos e sejamos bençãos.

Quando recebemos bençãos, sejam elas intelectuais, físicas, emocionais ou financeiras, as recebemos para que as compartilhemos. Devemos nos lembrar que elas vieram de Deus, como uma oportunidade para que nós sejamos fonte de bençãos para outras pessoas.

Quando estamos em dificuldades, também devemos nos lembrar que Deus tem algo a nos ensinar nessa situação, mesmo quando as circunstâncias adversas são causadas por nossas próprias más escolhas; Deus ainda, em sua misericórdia, usa da circunstancia para nos ensinar, nos fazer crescer. Precisamos estar atentos aos Seus ensinos.

Ainda que não estejamos em uma situação de dificuldade ou necessidade, ainda assim, em uma sociedade materialista como vivemos, tendemos a querer mais, a acumular mais dinheiro, a querer uma casa maior, um melhor emprego, uma promoção.
Não há nada de errado em querer essas coisas, mas devemos nos lembrar que tudo vem de Deus, na medida e proporção certa. Talvez, não estejamos preparados para uma promoção, talvez uma maior renda e sucesso financeiro poderia nos levar cair na primeira armadilha, comentada acima – o orgulho pela conquista – ou talvez a complexidade que uma casa maior nos traria é tanta, que Deus, por amor a nós, não permite que à tenhamos. Enfim, podem ser tantos os motivos, mas o importante é nos lembrarmos que tudo que temos vem de Deus, em proporção e medida certa para nós.

É Deus quem dá ao homem o fôlego de vida. Nós não podemos originar nada; só podemos juntar aquilo que Deus originou. Ele é nosso guardador, nosso conselheiro; e mais que isso, de Seu liberal suprimento recebemos toda a aptidão, todo tato e habilidade que possuímos. … Tudo que possuís é dom dEle; pois vós nada possuíeis com que o pudésseis criar ou comprar. É dado a você, não para se tornar uma cunha que vos separe dEle, mas para te ajudar à fazer o Seu serviço.

Ellen White em Nos Lugares Celestiais (grifo nosso)

A maior dádiva

O chamado de Deus para Israel se lembrar está relacionado a todo o cuidado Dele para com o povo, mas o maior dos feitos de Deus para Israel, que Deus estava constantemente a lembrá-los, foi o êxodo, foi a libertação da Terra do Egito. Até hoje os judeus comemoram a libertação do Egito por meio da Páscoa.

Nós, cristãos, também temos um grande motivo para agradecer, algo que jamais devemos nos esquecer, que devemos nos lembrar diariamente, que foi a libertação do pecado pelo sangue de Jesus Cristo na cruz.

A vida e morte de Jesus foi a maior benção que poderíamos receber, por meio de Cristo fomos feitos filhos e filhas de Deus; recebemos esperança de vida; fomos feitos sacerdotes de Deus.

Conclusão

Devemos, assim como Israel, nos lembrar de tudo que Deus fez por nós até aqui, Seu cuidado e amor, de que tudo que temos vem Dele e que Ele está no controle. Mas acima de tudo, jamais podemos nos esquecer da cruz, de que Deus veio a esse mundo, viveu como um homem, sofreu, e venceu o pecado para que fossemos salvos, para que tivéssemos vida, vida em abundância.

A vida comum

A grandeza está no coração do homem, buscamos a grandeza, queremos viver uma grande vida, vivemos apenas uma vez e queremos que essa seja a melhor vida que pudermos viver.

Essa ideia de grandeza, também tem estado a muito tempo em minha mente, venho buscado ser o “melhor” que eu posso, em querer conquistar coisas que me farão grande, em me destacar, em não viver uma vida “comum”.

Mas assistindo alguns filmes como About Time e Yesterday, passei a refletir sobre esse enfoque da vida comum, de que muitas vezes uma vida “ordinária” é a vida mais fantástica que podemos viver.

O que constitui uma vida “grande” e uma vida “ordinária”?

Algo grande se diferencia de algo ordinário pelo fato de não ser algo comum, de ser especial, de algo que o diferencia das outras, que não é facilmente substituído, que possui um valor sem igual, um valor único.

Olhando por esse ponto de vista, podemos afirmar que todas as vidas são grandes, que não há vidas ordinárias, pois cada vida conterá sua própria parcela de individualidade. Cada um veio de lugares diferentes e com histórias diferentes, o que faz com que todas as vidas sejam únicas.

Mas para que consigamos continuar em nossa reflexão, vamos dizer que uma vida ordinária seja aquela que a maioria poderia viver, sem destaque. O problema com essa abordagem é que o que conseguimos perceber como destaque, sempre estará relacionado a fatores externos ao próprio ato de viver, julgaremos aquilo que conseguimos ver, e muitas vezes iremos usar as medidas erradas para medir a grandeza da vida.

Por muito tempo nós julgamos como uma pessoa de destaque aquelas as quais possui uma boa notoriedade pública, fama; e aquelas que possui posses financeiras, pessoas ricas. Esses são parâmetros quantitativos, e por isso são mais “fáceis” de avaliar, o problema é que nós já sabemos – através de muitos exemplos – de esses não são bons parâmetros para se julgar uma “grande vida”, pois muitas pessoas com fama e bens materiais muitas vezes vivem uma vida “miserável”, no sentido de uma vida triste, solitária, deprimente. Então, por mais que tais pessoas conseguiram grandes realizações, não me parecem estar vivendo uma grande vida, no sentido que falamos acima, de ser a melhor vida que podemos viver.

Quando olhamos para a filosofia clássica grega, e seu estudo da ética (ética no sentido original da palavra, que seria algo como “a arte de viver”), vemos parâmetros bem diferentes para determinar o que seria a boa vida.

Naquela época já era o senso comum buscar a grandeza na fama (ou honra) e posses financeiras, entretanto para os filósofos esses não pareciam bons parâmetros para se julgar uma “boa” vida.

Para os filósofos como Aristóteles, Platão e Sócrates, a boa vida seria aquela vivida virtuosamente, aquela em que se abria mão de prazeres vulgares para desenvolver virtudes, uma vida guiada pela razão e não pela emoção/prazeres.

Definir a própria grandeza

Como falamos acima, a busca da grandeza faz parte do ser humano, queremos viver nossa vida da melhor maneira que pudermos. O problema é que se não tivermos clareza no que realmente queremos como pessoas, vamos acabar interpretando como grandeza as qualidades quantitativas externas, que serão mais fáceis de julgar, como riqueza e fama.

Ao não ter claro o que significa a grandeza para nós, o que realmente queremos como pessoa, entraremos na ansiedade do materialismo, sempre querendo mais e mais, nunca estando satisfeitos, e sempre pensando que com a próxima conquista, seja ela uma promoção, um melhor físico, uma casa, ou até uma ilha, nós nos sentiremos felizes, realizados, nos sentiremos grandes.

Mas a verdade é que nenhuma conquista nos trará realização se ela não estiver alinhada com nosso senso mais íntimo e pessoal do que é a grandeza para nós, aquilo que aquece nossos corações.

A grandeza na vida comum

Assim como há muitas pessoas ricas e famosas que não são grandes, há muitas pessoas que são grandes, mas sem terem alcançado fama e riqueza, são pessoas que atingiram a excelência como pais, como pensadores independentes, pessoas que são excelentes em apoiar outras pessoas com problemas, pessoas que aprenderam lidar com as adversidades da vida e tirar o melhor que podem de cada uma delas, enfim, a vida é tão complexa e há inúmeras maneiras de se desenvolver e alcançar a grandeza.
Muitas vezes, não há fama ou riqueza por trás dessas conquistas, mas há mais do que isso, há o pertencimento, o contentamento, há a felicidade.

Conclusão

O que é grandeza para você? Que áreas da sua vida você vê oportunidades para masterizar? Você quer ser um melhor pai, uma melhor mãe? Quer ser um bom amigo com uma boa inteligência emocional e palavras de conforto para quem precisa? Quer conquistar a liderança de sua família e levá-los a desenvolverem a grandeza individual de cada um? Enfim, não importa qual seja a grandeza que esteja buscando, o importante é perceber que o sucesso é individual, ele pode ou não estar relacionado com visibilidade externa. O mais importante é não tomarmos os sonhos de outros, os sonhos das massas, como nossos.

Somos únicos, nossa grandeza é única, e não só pode como há sim grandeza na vida “comum”!

Convertam o seu coração

Eu entendia o arrependimento, biblicamente falando, como o entristecimento pelo ato falho que cometemos, muitas vezes eu me sentia incomodado pois nem sempre eu me entristecia da maneira que achava que eu deveria, hoje vejo a questão do arrependimento um pouco diferente e gostaria de compartilhar com vocês.

Analogia com uma viagem de carro

Quando estamos em uma viagem, dirigindo em direção a um lugar, e percebemos que nos perdemos em algum ponto do caminho, nós nos sentimos chateados, principalmente quando percebemos que o desvio do percurso foi muito grande, pois nós sabemos que se continuarmos naquele caminho não iremos chegar onde queríamos, esse desvio está nos levando para um outro lugar.

Entretanto, quando estamos dirigindo, o mais importante não é o sentimento de chateação por ter errado o caminho, o mais importante é perceber que estamos no caminho errado e voltar para o caminho correto, o caminho que nos levará ao nosso destino.

Mudança de percurso

No cristianismo é a mesma coisa, nós temos, como cristãos, um ideal a se seguir, o ideal de Cristo, queremos cada dia sermos mais parecidos com Ele, ou seja, temos um destino bem claro.

Quando pecamos nós nos distanciamos desse destino; o pecado é, usando a analogia acima, pegar o caminho errado, o caminho que não nos levará em direção a Cristo.

Quando percebermos o nosso desvio de caminho, nos sentiremos chateados, pois assim como na analogia do carro, percebemos que o caminho que tomamos não nos levará onde queremos. Mas, também como na analogia do carro, o mais importante é percebermos nosso erro e fazermos os ajustes necessários para voltar para o caminho, isso é arrependimento, redirecionar o percurso.

Focar muito no sentimentalismo do arrependimento pode ser perigoso, pois o pecado cometido já não tem mais volta, teremos que conviver com suas consequências. O importante nesse momento é aprender com essa queda e fazer os ajustes necessários em nossa vida para não cairmos mais. Seja esse ajuste aumentar nossa comunhão com Deus, seja remover alguma distração de nossa vida, seja mudar nossa rotina, seja deixar de ver uma pessoa, enfim, cada um terá os próprios ajustes, mas o importante é fazê-los, para que a queda de hoje nos ajude a não cairmos amanhã.

Não estou dizendo que a tristeza por ter pecado é irrelevante, não, ela é importante. Ao percebermos o nosso erro e quão sujo o pecado é, nós naturalmente nos entristeceremos, e essa tristeza nos ajudará a fazermos os ajustes necessário. O meu ponto é que o foco excessivo no sentimentalismo pode nos fazer esquecer que o importante é a mudança, é voltar para o caminho correto.

Reconhecer o erro

Para que haja o arrependimento nós precisamos reconhecer nossos erros, e muitas vezes estamos em uma situação tão complexa na qual não entendemos que nos perdemos em nosso caminho, que saímos do percurso original.

Por esse motivo é importante refletirmos constantemente em que tipo de pessoa temos sido e como isso se assemelha com Cristo, que é nosso ideal. Essa tem de ser uma reflexão profunda e sincera, para que não acabemos como os fariseus da época de Jesus, que acreditando estarem servindo a Deus, só estavam alimentando o orgulho de seus corações com seu legalismo. Estavam em uma estrada bem diferente daquela que leva a Deus, tanto que repudiaram Seus ensinos na pessoa de Jesus Cristo.

Conclusão

Assim como em uma viagem, não é produtivo focarmos em quão longe ou quão perto estamos do nosso destino, mas sim se estamos no caminho certo. Às vezes ficamos ansiosos para chegarmos em nosso destino, isso é normal, mas temos sempre de lembrar que o importante é estarmos seguindo a estrada certa, só assim chegaremos no destino.

Se estivermos caminhando diariamente no caminho certo e na velocidade ideal, com toda certeza chegaremos ao nosso destino (o caráter de Cristo), nem que isso seja após Sua volta.

O que somos nós?

Na filosofia racionalista há uma clara distinção entre a matéria e a ideia (que também podemos chamar de alma), argumentando que o mundo material é transitório, enquanto o mundo das ideias seria atemporal. A razão seria então a fonte primária do conhecimento, pois só por meio dela que conseguimos acessar o mundo das ideias e conhecer o que é real, pois só o mundo das ideias é eterno.
A filosofia racionalista defende que o conhecimento é inato do ser humano, teoria abordada por Platão em seu diálogo Ménon.

Já a filosofia empírica defende que todos nós nascemos como uma folha em branco, e todo o conhecimento adquirido está relacionado às experiências sensórias que vivemos, ou seja, só podemos saber aquilo que experienciamos.

Na visão empírica, a realidade é coextensiva com o que pode ser experimentado.

Bertrand Russel em História do Pensamento Ocidental

Locke

Locke aborda o conhecimento empírico com sua relação com o mundo real, onde um conhecimento só é considerado verdadeiro se conseguirmos encontrar correspondência nas experiências sensórias.

Locke também levanta a questão se o mundo é realmente do jeito que o percebemos, ou seja, para ele há uma distinção entre o que é percebido pelos nossos sentidos e o que de fato é a realidade exterior que nos rodeia. É nesse ponto que ele traz a diferenciação entre as qualidades sensórias primárias e secundárias, onde as primárias se refere a características como comprimento, forma, quantidade, etc, que são consideradas como características exatas; já as qualidades sensórias secundárias seriam características, digamos que discutíveis, como a cor, aroma, gosto, etc.

Assim como na filosofia racionalista, Locke também afirma a existência de um mundo material.

Berkeley

Berkeley vai além em seu empirismo, afirmando que as coisas são exatamente da maneira que as sentimos, e questiona a realidade de um mundo material. Para Berkeley ser é ser percebido, portanto não faz sentido falar de experiências não experimentadas.

Quando interpretarmos o mundo material como realidade, poderíamos dizer que ao encostar em uma parede nós estamos interagindo com o mundo real, o mundo material, mas Berkeley argumenta que essa seria uma conclusão precipitada, pois as coisas que sentimos não são tangíveis, não temos nenhuma experiência a qual sustente que aquilo que sentimos possui uma substância material por trás de si.

Ao interagirmos com a parede, nós experimentamos a sensação do toque mas não experienciamos a matéria propriamente dita da parede, e como para o empirismo o conhecimento provém de nossas experiências, não podemos afirmar que há uma matéria por trás da sensação do toque.

Assim como em um sonho podemos tocar em uma parede e sentir a sensação do toque, ainda assim ela não possui uma substância material por trás de si. Nós percebemos a sensação, não a matéria.

Para Berkeley a única coisa que podemos afirmar é a existência do mundo das ideias, e não do mundo material. Ele questiona se somos realmente pessoas de carne e osso ou se tudo aquilo que nos rodeia não passa apenas de consciência.

Hume

Hume dá um passo além, questionando o próprio conceito do eu.

Para Hume há dois tipos diferentes de raciocínio, que são as impressões e as ideias. As Impressões seriam nossa percepção imediata da realidade, já as ideias seriam a lembrança que temos dessas impressões.
Segundo ele, às vezes formamos ideias sem que elas tenham correspondência na realidade, pegando partes de impressões diferentes e colocando todas juntas formando uma ideia irreal.

Para Hume o que chamamos de eu, ou personalidade, “nada mais é além de um acervo ou uma coleção de diferentes percepções, que se sucedem umas às outras numa rapidez inconcebível e se acham num estado de perpétuo fluxo ou movimento”, ou seja, quando dizemos “eu sou assim”, estamos pegando uma série de impressões que vivemos ao longo da vida e as colocando todas juntas, formando assim a ideia do eu, que para Hume seria um exemplo de ideia irreal.

E agora? ?

Ao olhar para o eu apenas como um conjunto de impressões, um conjunto de experiências sensoriais, uma primeira pergunta que me vem à mente é o que me impulsiona a querer viver essas experiências? O que me impulsiona a buscar entender o que eu sou? O que me impulsiona a buscar entender a natureza do próprio conhecimento?

A segunda pergunta que me faço é que se a realidade é aquilo que experimento, como saber se o que experimento é real ou se é apenas um sonho?
Pois relacionar a realidade com o que experimentamos é o mesmo que afirmar que quando estamos dormindo, e vivendo experiências em nossos sonhos, o sonho se torna nossa realidade.

Precisa haver uma realidade que exista independentemente de ser experienciada por mim ou não, e essa realidade precisa ser eterna, pois do nada nada pode surgir, então precisa ser uma realidade que existe a despeito de mim e que continuará existindo se eu estiver aqui ou não para percebe-la.

Mas ainda fica a questão de o que seria o eu na minha afirmação acima.

Concordo com Hume no sentido de que não existe uma personalidade imutável, que minha personalidade, gostos e paixões de hoje são diferentes do que eram a 5 anos atrás e serão diferentes daqui a 5 anos, entretanto não vejo essa constante mudança como um argumento contra o eu, na verdade é uma característica do ser, a mudança. A essência do ser humano é esse crescimento.

Me apoio na ilustre frase de Descartes, “penso, logo existo”.
O eu não é minha personalidade atual, o eu é minha consciência, é o que me faz questionar a própria natureza da realidade, é o que me faz buscar compreender o que acontece a minha volta, é o que me faz refletir, ou usando a mesma palavra que Descartes, é o que me faz pensar, é o que me diferencia da mais avançada Inteligência Artificial que pudermos desenvolver.